Mesmo sem turbulência, aviação agrícola voa em céu de incerteza na pandemia
A aviação agrícola não parou neste período de pandemia da covid-19, a exemplo das demais cadeias do agronegócio, setor considerado essencial à atividade econômica pelo governo federal. Embora não tenha ocorrido perda de faturamento, o novo coronavírus causou incertezas entre as empresas aeroagrícolas, o que adiou investimentos e acentuou a necessidade de ampliar o mercado, já que hoje elas são responsáveis por 15% a 20% do trato das lavouras brasileiras.
“Isso deixa uma boa margem para crescer, apostando na eficiência e rapidez, além da tecnologia e nas vantagens da terceirização – o produtor não imobiliza patrimônio na entressafra, economiza com mão-de-obra e o custo é reduzido”, diz o presidente do Sindicato Nacional da Empresas de Aviação Agrícola (Sindag), Thiago Magalhães Silva, em entrevista ao AGROemDIA.
Leia, a seguir, a entrevista:
AGROemDIA – Quais os reflexos da pandemia da covid-19 nas atividades da aviação agrícola brasileira?
Thiago Magalhães Silva – A aviação agrícola seguiu trabalhando normalmente. O maior reflexo da pandemia para o setor foi a incerteza sobre o futuro. Empresários que pretendiam investir em suas frotas ou instalações adiaram planos. O maior susto para o setor foi com relação à alta do dólar, principalmente quando se aproximou dos 6 reais em maio, já que a manutenção e boa parte dos financiamentos de aeronaves têm os valores regidos pela moeda norte-americana. O bom é que a cotação do câmbio começou a voltar a níveis praticáveis agora, quando estamos entrando na entressafra, período em que as empresas aproveitam para fazer a manutenção das aeronaves.
AGROemDIA – Houve redução no faturamento das empresas em decorrência da pandemia?
Magalhães – Não chegou a haver uma perda de faturamento por causa da pandemia, já que o setor é essencial às lavouras cujas commodities continuaram em alta, como a soja. Nem mesmo no setor algodão, que prevê queda na demanda mundial devido à pandemia, mas cuja safras são vendidas por antecipação. Ou no da cana-de-açúcar, que enfrentou problemas devido à queda na demanda de etanol em consequência da covid-19, associada à redução no preço do petróleo, o que tornou o biocombustível menos competitivo frente à gasolina.
AGROemDIA – O atual contexto permite projetar aumento de valor nos contratos de prestação de serviço da próxima safra?
Magalhães – O que ocorre agora é a negociação de contratos para a próxima safra. Por exemplo, o setor de cana, onde algumas usinas ainda podem sair do mercado, segue cortando custos. Nesse caso, as empresas aeroagrícolas também devem procurar otimizar a produtividade e verificar onde podem reduzir custos. Em algumas situações, renovando contratos de olho mais na parceria do que em um possível incremento no valor.
AGROemDIA – Há espaço para o setor expandir suas atividades, a fim de compensar eventuais perdas?
Magalhães – O foco do Sindag agora é montar uma estratégia com as associadas para promover as vantagens da aviação agrícola entre os produtores. Atualmente, o setor é responsável por 15% a 20% do trato de lavouras no país. Isso deixa uma boa margem para crescer, apostando na eficiência e rapidez, além da tecnologia e nas vantagens da terceirização – o produtor não imobiliza patrimônio na entressafra, economiza com mão-de-obra e o custo é reduzido porque o empresário aeroagrícola dilui seus custos entre vários clientes.
AGROemDIA – Muitos setores da economia demitiram empregados durante esta pandemia. Isso também ocorreu nas empresas aeroagrícolas?
Magalhães – Não chegou ao conhecimento do Sindag nenhuma demissão em empresa aeroagrícola por conta de dificuldades causadas pela pandemia. Como a aviação agrícola não parou e a safa de grãos, por exemplo, segue com estimativas em alta, fica fácil entender por que não houve redução salarial e nem de jornada de trabalho. Mas, pelas incertezas do período, também não houve novas contratações.
AGROemDIA – Quais as medidas adotadas pelo setor para proteger seus empregados?
Magalhães – As empresas têm adotado medidas como o uso de máscaras nos escritórios, hangares e outros espaços. Além disso, o pessoal de campo e pilotos já usavam máscaras em seus EPIs [equipamentos de proteção individual]. Algumas empresas dividiram os horários de almoço para aumentar o distanciamento em seus refeitórios. Outras fecharam refeitórios para o pessoal ir comer em casa. O álcool gel passou as ser presente em toda a parte, assim como aumentou a frequência da limpeza com produtos desinfetantes.
Em alguns estados, o Ministério do Trabalho começou a cobrar das empresas a elaboração de um plano detalhado de prevenção e de contingências para o caso de um funcionário ou dirigente contrair a doença. A partir disso, o Sindag fez uma parceria com um médico para elaborar o plano para todas as 181 associadas – elas representam 70% das empresas do setor no país –, nos 23 estados em que a aviação agrícola atua, com as medidas básicas de prevenção (uso do álcool, distanciamento físico e outras), além de treinamento e material informativo. Cada empresa está repassando suas informações, como número de funcionários em cada setor e detalhes de suas instalações e rotinas, para o plano ser adaptado à realidade de cada uma delas.
AGROemDIA – Qual deve ser o cenário pós-pandemia para o setor aeroagrícola?
Magalhães – Com o dólar e o mercado se estabilizando, a perspectiva é boa para o pós-pandemia. Passado o susto da queda do preço do petróleo e da alta o dólar, os empresários aeroagrícolas tendem a retomar os investimentos. A frota começou 2020 com 2.280 aeronaves, uma alta de 3,92% em 2019. Em 2018, o setor havia crescido 3,94%, recuperando-se de um 2017 em que cresceu 1,54%.
Com isso, se não houver mais nenhuma surpresa negativa na economia, o Sindag trabalha com a hipótese de que tenha, em 2020, um incremento na frota próximo a 4 %. Isso pelo aumento na demanda de aviões turboélices (parcela que cresceu mais de 250% desde 2011, enquanto a frota total aumentou em pouco menos de 35% no mesmo período) e pela demanda inerente à necessidade de tecnologia e eficiência nas lavouras.
Pelas estimativas do Sindag, o setor tem potencial de crescimento rápido até 3 mil aeronaves (hoje a frota é de 2.280 aparelhos), considerando as necessidades das lavouras e prevendo aumentos de safra para os próximos anos. A partir dos 3 mil aparelhos, a aviação agrícola ainda crescerá no Brasil, mas em ritmo mais lento.
AGROemDIA – Com a pandemia, o setor empresarial – incluindo o do agro – passou a recorrer mais à comunicação virtual em suas rotinas. Isso também ocorreu na aviação agrícola?
Magalhães – Talvez a mudança que mais vai se sentir nas empresas a partir do “novo normal” será o predomínio das ferramentas de videoconferências. No caso do Sindag, houve um aumento na frequência das reuniões internas e com parceiros, além do incremento das relações institucionais. Isso trouxe uma diminuição de custos com passagens, estadias e alimentação.
Paralelamente, o sindicato aumentou o número de palestras e treinamentos oferecidos às associadas, assim como os encontros regionais com essas empresas. Ao mesmo tempo, cada evento passou a ter um número maior de participantes do que quando eram feitos presencialmente. A internet otimizou tempo e recursos e, por isso, deve ficar.