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Artigos / Maurício Antônio Lopes

09/04/2018 | 13:28

A real contribuição do campo

O IBGE divulgou os resultados da economia brasileira em 2017, ano que marcou o fim da recessão e a retomada do crescimento. Os recordes da produção agropecuária, registrados e amplamente divulgados pela Conab, alavancaram o desempenho do país com um avanço 13% maior que o registrado em 2016. O campo contribuiu com 60% do crescimento na economia como um todo, enquanto os serviços cresceram 0,3% e a indústria permaneceu com os mesmos índices do ano anterior.  Além do maior crescimento registrado desde 1996, os agricultores garantiram a oferta regular de alimentos à população, o que permitiu reduzir a inflação. Ao mesmo tempo, aumentaram as exportações, o que colaborou para o maior saldo comercial da história do país, de US$ 67 bilhões
 

As lavouras e a pecuária provocam uma reação em cadeia e influenciam todo um sistema de negócios e indústrias, envolvendo fornecedores de insumos e serviços, a indústria transformadora de alimentos e fibras, o sistema de armazenagem e transporte, marketing, distribuição, enfim, um complexo de operações, conhecido como agronegócio, que tem grande impacto na economia. Impossível, pois, não considerar os imensos efeitos do campo, antes e depois das lavouras e criações, desde os fabricantes de enorme gama de insumos, máquinas e equipamentos, até as indústrias de laticínios, bebidas, frigoríficos, tecelagens, atacadistas, supermercados e distribuidores de frutas e hortaliças frescas, entre muitos outros.

E convém destacar que essas atividades, tão importantes para o dia-a-dia das pessoas, têm impacto em todo o nosso imenso território. Lubrificam o emprego no campo, nas cidades e no comércio em todos os rincões do Brasil. E alimentam as exportações, que geram consequências enormes no desenvolvimento econômico, permitindo financiar o capital da indústria, gerando divisas que nos possibilitam importar o que não se produz aqui, além de garantir uma posição de destaque ao Brasil como poderoso provedor de alimentos para o mundo. A alimentação do povo brasileiro a preços declinantes corresponde a uma grande transferência de renda para os mais pobres, mantendo a inflação em queda ou estável, fortalecendo toda a economia.

Ainda assim muitos analisam a agropecuária com preconceito. Um grave erro. Potências econômicas como Estados Unidos, Canadá, Alemanha e França valorizam e protegem com todos os instrumentos possíveis os seus setores agrícolas. O fato é que muitos não percebem os imensos efeitos diretos, indiretos ou induzidos pelo aumento das atividades econômicas relacionadas ao campo.

Colher, estocar e processar a safra demanda máquinas sofisticadas, estradas, pontes, secadores, silos. Comercializar, transportar e transformar os produtos do campo demanda cooperativas, tradings, navios, trens, caminhões, portos. Isso gera procura por aço, asfalto, componentes industriais sofisticados e múltiplos serviços especializados no campo das finanças, do comércio, da gestão de riscos, da segurança, das comunicações, etc. Uma infinidade de efeitos indiretos e induzidos que, combinados aos efeitos diretos, dão uma melhor dimensão da real contribuição da agropecuária para a economia do país. Portanto, é fácil perceber que, sem os efeitos diretos, indiretos e induzidos pela agropecuária, a economia brasileira teria experimentado significativa queda, ao invés de progresso em 2017.

E na medida em que o campo agrega valor, diversifica e especializa a sua produção, o potencial de benefícios para a economia e a sociedade cresce ainda mais.  O Brasil já transforma grande parte dos seus grãos em carnes e componentes industriais, como óleos e amidos.  A fruticultura nacional é considerada uma das mais diversificadas do mundo e cada vez mais alcança mercados sofisticados e rentáveis.  Derivados da cana-de-açúcar já podem ser transformados em garrafas pet, aviões já realizam os primeiros voos comerciais utilizando bioquerosene como combustível e é crescente a

produção de cosméticos, essências, aromas e sabores diferenciados a partir da nossa biodiversidade.

E é cada vez mais harmônica a relação entre a produção e o meio ambiente.  Ao avaliarmos a evolução das emissões de gases no período entre 2010 e 2014 (último dado oficial) a agricultura teve aumento de 4,3%, a despeito do espetacular avanço do setor. Excetuando mudanças no uso da terra, com redução de 33,2% de emissões, a agricultura teve melhor desempenho que os setores de energia, indústria e tratamento de resíduos. Ao incorporar práticas sustentáveis o Brasil já desponta como um competidor diferenciado, capaz de produzir, por exemplo, carne carbono neutro, como recentemente demonstrado pela Embrapa.

Em momento em que a maioria dos países se debate com o envelhecimento da população rural e com a baixa atratividade do campo para as novas gerações, o movimento no Brasil é exatamente o contrário. A agropecuária brasileira atrai cada vez mais jovens, certos de que vale a pena investir em inteligência e criatividade voltados para o mundo da alimentação e da agricultura. São inúmeros os exemplos de startups e de jovens empreendedores que buscam atender produtores cada vez mais ávidos em busca do novo. Assim, o campo contribui para a construção de um conceito de país contemporâneo, focado no uso inteligente dos nossos recursos naturais, na produção sustentável e no bem-estar da população brasileira.

Maurício Antônio Lopes

Maurício Antônio Lopes
É graduado em Agronomia pela Universidade Federal de Viçosa-UFV (1983), com mestrado em Genética pela Universidade de Purdue (1989), e doutorado em Biologia Molecular de Plantas pela Universidade do Arizona (1993).

Pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais - EPAMIG, de 1986 a 1989 e pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária EMBRAPA, desde 1989.

Atuou como melhorista de milho, líder do programa de melhoramento e Chefe Adjunto de P&D da Embrapa Milho e Sorgo, unidade localizada na cidade de Sete Lagoas - MG. Como pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo contribuiu para o desenvolvimento de populações, variedades, linhagens e híbridos de milho tropical com ênfase em melhoria de qualidade nutricional e tolerância a estresses abióticos, e participou da gestão do sistema de franquia em genética vegetal da Embrapa (UNIMILHO), desenvolvido em associação com empresas privadas do setor de sementes.

Como gestor de P&D da Embrapa Milho e Sorgo liderou o processo de formulação, validação e implantação da metodologia de organização de equipes segundo a lógica dos Núcleos Temáticos. De 2000 a 2003 foi Chefe do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, em Brasília, quando liderou o processo de definição e implantação do atual modelo de gestão da programação de P&D da Empresa (SEG - Sistema Embrapa de Gestão).

Em 2003, ingressou na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília, onde atuou como pesquisador, gestor do Núcleo Temático de Recursos Genéticos (2003-2004), Chefe Adjunto de P&D (2004 a 2007) e Articulador Internacional (2009). De abril de 2007 a outubro de 2008 trabalhou na Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura FAO, em Roma, em suporte à organização e lançamento de uma plataforma global para promoção do uso sustentável de recursos fitogenéticos para alimentação e agricultura (GIPB/FAO). Integrou diversas missões técnicas ao exterior e contribuiu como membro de diversos comitês, comissões e grupos de trabalho nacionais (MCTI, CNPq, Capes, Finep, CGEE, Fapemig, etc) e internacionais (CGIAR, FAO, Banco Mundial, Procisur, etc).

 Entre março 2007 e outubro 2012 atuou como membro do Conselho Científico da Fundação Agrópolis, em Montpellier, França. Entre outubro 2009 e abril 2011 foi coordenador e pesquisador do Labex Coréia, programa de cooperação internacional da Embrapa na Ásia, desenvolvido em parceria com a "Rural Development Administration" - RDA na Coréia do Sul. Entre abril 2011 e outubro 2012 exerceu o cargo de Diretor Executivo de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa.

Desde outubro de 2012, ocupa a posição de presidente da Embrapa. De 2013 a 2016, foi membro do Comitê Executivo do Fundo Global para Conservação da Diversidade de Cultivos, em Bonn, na Alemanha. É membro do conselho do Global Panel on Agriculture and Food Systems for Nutrition, em Londres, desde 2013. Em 2014 foi agraciado com o "Distinguished Agriculture Alumni Award" da Universidade de Purdue, West Lafayette, IN - USA, e se tornou, também, membro do Conselho do "World Food Center", sediado na Universidade da Califórnia, Davis - EUA. Em 2015 foi agraciado com a Ordem do Mérito Agrícola, concedido pelo Governo da França. Em 2017, recebeu a insígnia da Ordem de Rio Branco, com o título de Comendador, pelo Ministério das Relações Exteriores; e tomou posse na Academia Nacional de Agricultura.
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