Terça-feira, 21 de Abril de 2026 (66) 98428-3004
informe o texto a ser procurado

Artigos / Giovana Maciel

22/11/2019 | 13:58

Sim! Seu pasto é uma lavoura!

Primeiro o fogo, em seguida a ação do "pisoteio” ou “pastejo" sobre as formações florestais mais ralas, como a caatinga e o cerrado, e assim instalavam-se progressivamente os "campos". Já o estabelecimento de pastagens nas áreas cobertas por vegetação nativa iniciou-se praticamente no começo do século passado e se intensificou a partir das décadas de 30 e 40. A derrubada da mata visava o preparo da terra, a médio e longo prazos, para ser utilizada com os cultivos anuais – arroz, milho, algodão etc. – e principalmente para a formação de cafezais nas melhores glebas.

Nessa lógica, os bovinos eram considerados os desbravadores nas fases iniciais de substituição das densas florestas por cultivos de consumo e exportação. Na falta de um comércio organizado de venda de sementes, o plantio do capim nas áreas derrubadas e queimadas se fazia por via vegetativa. Mudas eram plantadas sobre as cinzas, em função da disponibilidade nos viveiros da gramínea a ser cultivada. Nas regiões onde a pecuária parecia ser um empreendimento de futuro economicamente promissor, os pecuaristas iniciantes adotavam o plantio de mudas nos menores compassos. 

Esse sistema de formação de pastagens ou invernadas estava de acordo com as condições econômicas da época, em que a mão de obra disponível e barata favorecia o avanço do empreendimento sobre extensas áreas. Com grande frequência, o plantio das mudas de gramíneas mais espaçadas permitia intercalar o cultivo de cereais de subsistência. No segundo ano, as sementes do capim caídas ao solo asseguravam o estabelecimento de nova invernada.

A grande mudança de qualidade no plantio dos pastos de capins ocorreria com a intensificação de um comércio direto de sementes entre as propriedades agropecuárias. As vastas pastagens plantadas por mudas, numa etapa anterior, asseguravam o fornecimento de sementes para a expansão das áreas da própria empresa e ainda excedentes para a comercialização.

Os capins que predominaram com quase absoluta exclusividade até as décadas de 30 e 40 pertenciam às seguintes espécies: Melinis minutiflora, nome científico do capim gordura; Panicum maximum, conhecido como colonião ou guiné; Hyparrhenia rufa, que é o capim Jaraguá; e a Brachiaria mutica, que é chamada de angola ou fino, dependendo da região.

Feita essa retrospectiva, vale lembrar que o manejo de solo, com relação à correção da acidez, da fertilidade e práticas de conservação do solo inexistiam naquela época. O uso de capins rústicos, aliados às condições climáticas favoráveis e à qualidade do solo de áreas recém-desmatadas criaram para os pecuarista uma falsa ilusão de que a pastagem não necessita dos mesmos cuidados que as lavouras de grãos.

Em virtude dessa forma de “tocar” a fazenda, hoje temos no Brasil 60% ou mais de áreas de pastagens degradadas, em maior ou menor escala. A degradação das pastagens é um processo complexo que envolve causas e consequências que levam à gradativa diminuição da capacidade de suporte da pastagem, culminando com a degradação propriamente dita. Dentre as principais causas, destaco a falta de manejo adequado de solo e do pastejo; a escolha errada do capim. E como as piores consequências, temos a perda de vigor e da capacidade produtiva da pastagem; presença de cupins e plantas invasoras; solo descoberto; erosão. Enfim, trazem enormes prejuízos econômicos e ambientais.

Sim, a pastagem é uma lavoura e a produção esperada são quilogramas de carne ou leite por hectare. Se perguntarmos para qualquer agricultor quantos sacos de soja ou de milho ele produziu, a resposta estará na ponta da língua e, ainda mais, saberá responder o custo de um saco de grão produzido. A pecuária caminha a passos lentos nesta direção. 

As tecnologias para melhorar a qualidade do solo, do rebanho e das pastagens estão disponíveis e vagarosamente vêm sendo adotadas. O objetivo da pesquisa é mudar esse modelo “tradicional” da pecuária brasileira para um sistema produtivo moderno, que leva em consideração a adoção das tecnologias e acima de tudo a relação custo e benefício proporcionado por elas.

A produtividade média da pecuária de corte brasileira, ao longo do ano, varia de 2 a 3 arrobas por hectare (ha)/ano, com uma taxa de lotação de 0,5 a 1,0 UA/ha (UA - unidade animal = 450 quilos de peso vivo). No entanto, devido à sua dimensão continental, no Brasil, temos atualmente o maior rebanho do mundo, com cerca de 223 milhões de cabeças de gado e somos o maior exportador de carne bovina.

As áreas de pastagens não tem aumentado, principalmente devido à redução dos desmatamentos, à regeneração de áreas de reserva legal e ao avanço da agricultura. Isso indica que a área de pastagens não é limitante para o crescimento da produção animal. Em trabalhos da Embrapa Cerrados, avaliando desempenho animal em pastos bem manejados, obtivemos produtividades variando de 16 a 18 arrobas por hectare por ano, com taxas de lotação média de 3 UA/ha. 

Antes, sem adoção de tecnologias no pasto, eram necessários dois hectares ou mais para produzir um boi. Hoje, é possível criar até três bois em um único hectare.

Aproximadamente 90% do nosso rebanho nasce, cresce e é terminado a pasto – essa é a forma mais econômica e prática de produzir e oferecer alimentos para os bovinos. As pastagens, portanto, desempenham papel fundamental na pecuária brasileira, garantindo baixos custos de produção e conferindo, em grande parte, sustentabilidade ao setor. A implantação de um pasto que garanta elevadas produtividades deve considerar as seguintes soluções:

- Correção da acidez e manejo da fertilidade do solo de acordo com as exigências das forrageiras e conforme resultados da análise química do solo.

- Escolha adequada da forrageira de acordo com a meta de produção estabelecida. Por exemplo: capins que suportam altas taxas de lotação, mas que não garantem alto ganho de peso podem ser usados para vacas. Ou seja, conforme a meta e ser atingida e categoria animal escolhida, tem-se o capim adequado. 

- Aquisição de sementes de alta qualidade e certificadas e cuidados no estabelecimento como a incorporação da semente na profundidade correta conforme as recomendações e pastejo leve de formação entre 70 e 90 dias após plantio.

A Embrapa lançou recentemente várias opções que atendem diferentes situações. O capim BRS Zuri (Panicum maximum), com tolerância ao fungo Bipolaris maydis, proporciona alto desempenho animal e altas taxas de lotação no período chuvoso, em pastejo rotacionado. 

Para regiões com problemas de cigarrinha das pastagens, a indicação é pela braquiária híbrida BRS Ipyporã que apresenta alta resistência a essa praga, além de garantir ganho elevado de peso por animal e por área (0,675 kg/animal/dia, e ganho de peso vivo por área igual a 1.150 kg/ha/ano) em lotação contínua. 

Pensando em diferimento de pastagens, a opção pode ser a BRS Paiaguás (Brachiaria brizantha), rústica, com boa tolerância ao déficit hídrico, e que permanece mais verde e com melhor valor nutritivo na seca em relação às outras brizanthas.

Pensar na pastagem como lavoura fará o produtor entender que seu uso deverá ser potencializado no período chuvoso e que, com o uso de estratégias já bem conhecidas (conservação de forragem, vedação de pastos e suplementação apropriada), o período seco não será mais um problema, desde que haja um planejamento prévio. A dica é começar a mudança com pequenos ajustes, no ritmo adequado à capacidade operacional do produtor, e contar com um bom assessoramento técnico para que sua lavoura produza mais e mais quilos de carne ou de leite por hectare.

 

Embrapa Cerrados

Contatos para a imprensa
cerrados.imprensa@embrapa.br
Telefone: (61) 3388-9945

Mais informações sobre o tema
Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC)
www.embrapa.br/fale-conosco/sac/

0 comentários

AVISO: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do site. É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O site poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema da matéria comentada.

Desenvolvido por Investing.com
Resumo Técnico fornecido por Investing.com Brasil.
 
Sitevip Internet
Fale conosco via WhatsApp