Um estudo recente da consultoria Bain & Company acende um alerta sobre um possível déficit de até 45% no fornecimento global de biocombustíveis até 2040. A escassez preocupa especialmente os setores de aviação, transporte marítimo e rodoviário pesado — áreas nas quais a eletrificação ainda enfrenta fortes limitações. Diante desse cenário, o Brasil desponta como um dos países mais bem posicionados para suprir parte significativa da demanda mundial.
Com uma sólida base de produção de biomassa, o Brasil reúne vantagens competitivas importantes, como a larga produção de soja e cana-de-açúcar, além de um parque industrial consolidado para fabricação de etanol e biodiesel. Apenas nos últimos dois anos, a capacidade de esmagamento de soja cresceu 20%, e o setor ainda opera com margem de ociosidade que permite aumentar a produção com investimentos relativamente baixos.
A infraestrutura logística nacional, já integrada ao comércio internacional, também contribui para ampliar o potencial de exportação de combustíveis sustentáveis. Atualmente, mais de 60% da soja brasileira é exportada in natura — um indicativo de que ainda há espaço para expandir o processamento doméstico sem comprometer o abastecimento interno ou a segurança alimentar.
A produção de biodiesel no Brasil vem crescendo em ritmo mais acelerado que a própria produção de soja, apoiada em ganhos de produtividade e no uso sustentável de áreas já abertas ou degradadas. Isso reforça a possibilidade de crescimento sem a necessidade de avançar sobre novas áreas, como regiões de floresta nativa.
“O Brasil pode ir além da soja e da cana-de-açúcar. A macaúba, por exemplo, é uma palmeira nativa com alto rendimento de óleo e pode ser cultivada em áreas degradadas. Outras culturas como camelina e carinata também apresentam grande potencial, contribuindo para diversificar a oferta de matéria-prima com menor impacto ambiental”, afirma Felipe Cammarata, sócio da Bain & Company.
Segundo o estudo, a adoção dessas culturas alternativas pode ainda otimizar o uso das áreas agrícolas durante o período de entressafra, além de reduzir a dependência de commodities tradicionais. Com esses diferenciais, o Brasil se fortalece como uma peça-chave na transição energética global, oferecendo soluções viáveis para mitigar o déficit de biocombustíveis previsto nas próximas décadas.