06/11/2026 | 16:37 - Atualizada em 06/11/2026 | 16:45
Repórter Agro
Para o advogado Tarcísio Tonhá, especialista em recuperação judicial que atende produtores rurais e empresas em Mato Grosso e em todo o país, os casos são só a parte visível.
Supermercados, distribuidoras de alimentos, transportadoras, madeireiras e o comércio em geral também têm buscado formas de reestruturar suas dívidas. "Quando o produtor para de girar, a cidade inteira sente", afirma.
Os 16 negócios analisados têm um ponto em comum além da dívida: continuam funcionando e mantiveram os empregos. Todos recorreram à recuperação judicial, instrumento previsto em lei que permite reorganizar as dívidas sem fechar as portas.
E não é mais coisa só de grande empresa: ao lado de grupos com dívidas acima de R$ 100 milhões estão um hotel familiar, uma loja de materiais de construção e uma empresa de piscinas.
Para Tonhá, há um equívoco comum sobre o instrumento: a ideia de que ele serve para não pagar. "O produtor rural é, antes de tudo, alguém que quer honrar a palavra. A recuperação judicial existe exatamente para isso, para que ele pague, mas pague o que é justo."
“Honrar compromisso não é aceitar qualquer conta. Ninguém deveria perder a terra de uma vida inteira para pagar juros que dobram a cada renegociação.”
Durante o processo, as cobranças e execuções ficam suspensas, e o devedor apresenta um plano de pagamento aos credores.
Segundo o advogado, os planos aprovados costumam prever cerca de 3 anos de carência e de 12 a 20 anos para pagar, com descontos que, em alguns casos, chegam a 85% do valor da dívida.
A safra colhida (ou a receita) já não paga os custos e as parcelas do ano.
Você paga e repactua, mas o saldo devedor quase não diminui, e o banco ou o credor condiciona a repactuação a uma entrada alta (de 20% a 30% do valor devido), sempre exigindo novas garantias.
Com o crédito escasso, ficou cada vez mais difícil honrar todos os compromissos em dia.
O banco não aceita renegociar em condições que caibam no caixa.
Bens essenciais, como a fazenda, as máquinas ou os caminhões, correm risco de leilão ou busca e apreensão.
“Este é um momento-chave na vida de muitos negócios, de produtores rurais e de empresários. Para alguns, será a hora de se reorganizar financeiramente, enxugar custos, rever a operação e buscar uma solução para o problema. Para outros, pode ser o fim de uma história de muitos anos. O que vai definir de que lado cada um vai estar não é o mercado, nem o tamanho da dívida. É a decisão tomada pelo empresário e pelo produtor rural.”
Com juros altos por mais tempo, o crédito que impulsionou o crescimento do interior de Mato Grosso passa a exigir muito mais cuidado. As histórias desta reportagem mostram, porém, que há caminho para atravessar a crise sem abrir mão do que foi construído.
Para quem já sente a conta pesar, esperar deixou de ser uma opção segura.
Tarcísio Tonhá
Advogado especialista em recuperação judicial.
Sócio-fundador do escritório Tarcísio Tonhá Advogados Associados. Especialista em Processo Civil pela PUC-SP e em Processo e Recuperação Judicial pela PUC-PR. Atua na reestruturação de dívidas de produtores rurais e empresas.
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