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Notícias / Agronegócios

14/04/2021 | 15:05

Dia Mundial do Café: muitas histórias, uma paixão em comum

Conheça mulheres que dedicam suas vidas à produção do grão a partir do qual é feita a segunda bebida mais consumida no Brasil

Roberta Paffaro*

O cheiro, o sabor e aquele “break” no nosso dia a dia. O famoso cafezinho é parte da cultura e tradição brasileira. Não é à toa que o nosso desjejum se chama “café da manhã”. E você sabia que em cada 10 xícaras consumidas no mundo, pelo menos 3 vem do Brasil?

A China, o maior importador de produtos agropecuários do nosso país, está começando a fazer parte desta estatística, porém, ainda é elitizado. Diferenciado é o jovem chinês que toma café em vez do popular chá. De acordo com o Conselho dos Exportadores de Café (Cecafé), as exportações brasileiras para o país mais populoso do mundo aumentaram mais de 110% entre 2015 e 2019.

No Brasil, nem a pandemia afetou o consumo. Depois da água, o café é a bebida que não pode faltar em nossas mesas. Eu admito que sou uma consumidora convicta e faço parte da estatística que aponta que os brasileiros bebem em média 4 xícaras por dia.

Nós somos o maior produtor e exportador mundial do grão. A safra 2020/2021 está estimada entre 43,8 milhões e 49,5 milhões de sacas (somando conilon e arábica), o que representa uma redução entre 21,4 a 30,5%, se comparada a anterior.

“Um dos motivos é o ciclo bienal que consiste na alternância de um ano com grande florada seguido por outro com florada menos intensa. Essa característica natural permite que a planta se recupere para produzir melhor na safra subsequente”, explica Marisete Belolli, gerente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em São Paulo.

O próximo levantamento será realizado neste mês de abril e pode sofrer alterações. “As condições climáticas no início do ciclo não foram tão favoráveis, principalmente com relação às chuvas, ficando abaixo do volume esperado em algumas regiões”, complementa Marisete.

A incerteza na produção e a desvalorização do real trouxeram volatilidade nas cotações do café. O valor da saca do arábica encerrou março cotado acima de R$ 700, de acordo com a Bolsa de Nova York.

Enquanto isso, no campo…
Rose Mary Giacon do Valle, conhecida como Rosa, nasceu em São Sebastião da Grama, interior de São Paulo. Em 1954, a família se mudou para Guaxupé, Minas Gerais. Dona Rosa trabalhava numa fábrica de produtos lácteos e recebia os produtores rurais.

Ali, ela conheceu José Carlos, que conferia entregas de leite das propriedades de seu pai através de fichas em braile, já que era cego. A paixão foi instantânea. “A alegria, irreverência e inteligência dele me encantaram, até mesmo porque outros produtores com plena visão não possuíam um controle tão rigoroso quanto o dele”, conta Dona Rosa.

Em 1970, eles se casaram e Rosa foi trabalhar com o sogro e o marido nas fazendas de café. Ela aprendeu a dirigir e se dedicou a conhecer mais sobre o cultivo cafeeiro e à criação de gado leiteiro. Apesar da pouca tecnologia e recursos disponíveis, ela era os “olhos do marido” e já sabia identificar deficiências do cafeeiro com análise das folhas, bem como doenças e pragas, tais como ferrugem e broca. “Cheguei até alertar um estagiário que não era broca, mas defeito do grão”, conta, toda orgulhosa.

O relacionamento e a parceria de trabalho do casal eram admiráveis. Ele sem enxergar a evolução da lavoura de café e ela transcrevia tudo a ele. “Eu explicava, analisava e meu marido buscava uma solução. Na época, a gente administrava 850 hectares”, diz Dona Rosa.

Após a divisão entre os herdeiros, José Carlos resolveu renomear a sua parte da fazenda em homenagem a irmã: Santa Amélia. O casal teve 3 filhos: Mário Neto, João Paulo e Antonio. Em 1988, o filho primogênito de apenas 17 anos sofreu um acidente aéreo e morreu. “Perder Mario Neto foi uma tragédia. O mundo caiu sobre nós. Foi necessária muita força para seguir em frente”, desabafa ela.

Em menos de 10 anos, outra perda. O marido de Dona Rosa faleceu. O apoio do filho João Paulo a incentivou a seguir com a lavoura de café.

Dona Rosa, aos poucos, fez a sucessão familiar. Os filhos João Paulo e Antônio administram a lavoura com a supervisão dela. “Da mesma forma que eu e o Zé, eles se complementam, já que um faz exatamente o que o outro não sabe”, conta a produtora de café.

Atualmente, Rosa já vacinada contra Covid 19, torce por dias melhores e mantém as práticas de prevenção e reforça os procedimentos aos funcionários. Sempre atenta às notícias, ela ainda controla a produção e verifica qualidade dos grãos no terreiro de secagem.

A fazenda Santa Amélia possui 65% do processo do parque cafeeiro mecanizado. São 130 hectares de café com produção média – bianual – de 31 sacas por hectare. O café geralmente é depositado na Cooperativa dos Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé), que se encarrega da exportação.

”A renovação é cara, mas necessária. Tivemos o apoio da Educampo do Sebrae. Já saímos de 28 para 31 sacas por hectare e miramos 35 agora”, e acrescenta, “Ainda torramos parte de nosso café com a marca Santa Amélia”, conta Dona Rosa.

Minas Gerais é o estado que concentra a maior produção de café do Brasil e deve alcançar entre 19,8 milhões e 22,1 milhões de sacas. A redução pode chegar a 42,8% em relação ao último ano.

“As dificuldades da atividade cafeeira não são poucas. Temos uma empresa a céu aberto com produto cotado na bolsa”. E acrescenta ela: “Os preços estão melhores, mas nossos custos também aumentaram”. Os filhos de Dona Rosa, João Paulo e Antônio, fazem gestão de risco de preço através de contratos futuros para se livrarem das bruscas variações do mercado.

Como ensinamento, Dona Rosa, que já presenciou mais de 49 safras, orienta os filhos a serem firmes nos momentos ruins e prudentes nos bons. “É assim mesmo, o preço e a produtividade oscilam”, pontua ela.

Café paulista
São Paulo é o terceiro maior produtor de café do país, ficando atrás apenas de Minas Gerais e do Espírito Santo. Em Dourado, no interior do estado, as irmãs Julia e Nadia Nasr gerenciam 100 hectares dedicados à produção de café arábica. O objetivo é claro: produzir café de alta qualidade para o mercado interno.

“Por muito tempo o Brasil exportou o que tinha de melhor em suas produções para países da Europa e Ásia, e nós consumíamos o que sobrava. Acreditamos que este cenário está mudando e buscamos contribuir para isto. Queremos que nossos consumidores brasileiros tomem cafés deliciosos e de alta qualidade”, reforça Nadia.

Em 2019, elas fundaram o Café por Elas – marca própria. Além da bebida de qualidade, elas pretendem promover o empoderamento feminino.

A mãe delas foi a fonte de inspiração. Como neta de trabalhadores rurais, Abadia Helena Gomes da Silva comprou a fazenda quando elas ainda eram pequenas. Durante a infância, as meninas acompanharam o plantio das primeiras mudas do grão. “Nós somos produtoras de café, mas também queremos enaltecer e divulgar o trabalho de outras produtoras mulheres”, diz Julia.

Este ano, as irmãs começaram a comprar e produzir linhas de outras produtoras ao redor do Brasil. Nesta nova etapa, elas estão desenvolvendo torra e blends para que estes cafés fiquem ainda mais saborosos. “É muito gratificante”, completa Nadia.

Sobre o mercado de café brasileiro, elas acreditam que os consumidores estão mais engajados e interessados na origem da bebida. A aproximação do campo e da cidade pode fazer a diferença. “Queremos que os nossos clientes saibam todas as etapas de produção, manejo e a industrialização do café, pois desta forma conseguem entender e valorizar o produto final”, afirma Nadia.

O amor está atrelado desde a produção até o consumo. “Nós adoramos café. Preparamos bebida através de métodos diferentes para extrair sabores diferentes e até criamos algumas receitas ao longo do dia”, compartilham as irmãs.

Neste Dia Mundial do Café, Nadia e Julia, gostariam de enaltecer a participação da mulher no mercado. “Fica aqui o nosso convite: procurem conhecer outras mulheres produtoras e aprender com elas. Juntas somos mais fortes!”, finalizam as irmãs.

E depois de toda esta conversa, que tal fazermos um intervalo para o nosso cafezinho?

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